28 jun
  • Por União Planetária

Entrevista Exclusiva com Ulisses Riedel

A essência da vida como permanente pauta editorial

Um verbo sempre inspirador. Presidente e fundador da União Planetária (UP), Ulisses Riedel parece saber tocar os corações de seus interlocutores. Deriva daí, talvez, sua perene capacidade de articular, com harmonia, movimentos e atores sociais às vezes díspares, mas sempre no sentido do bem comum. Em sua casa, na Sede Cultural da UP, no Lago Norte, ele me recebeu, em agosto deste ano, em uma tarde de sol a pino, às margens do Lago Paranoá, para mais uma conversa edificante, sinalizadora de trilhas internas da alma. Nesta entrevista, entre outros assuntos, ele nos fala sobre a criação do Jornal Supren, a atuação da UP e a importância de veículos de imprensa que estejam em sintonia com os princípios do humanismo e da comunicação positiva

Por Paulo Henrique de Castro

O senhor já fundou a TV Supren, que divulga os ideais humanistas e os fundamentos espirituais que são a base conceitual de atuação da UP. Então, por que resolveu criar também este veículo de comunicação impresso, o Jornal Supren?

A gênese deste jornal está comigo há mais de 40 anos. Há quatro décadas que venho gestando este sonho. Mas, com o passar do tempo, como fundamos a TV Supren, eu achava que uma emissora já seria suficiente, mas depois vi que o jornal conseguiria um alcance que a TV não teria, pelas características peculiares de cada um deles. São duas maneiras de falar para públicos distintos sobre as mesmas coisas de uma forma mais ampla.

Em que medida a comunicação positiva se encaixaria nisso?

A comunicação positiva é essencial. A imprensa em geral toca em aspectos imediatistas da realidade concreta. Já a comunicação positiva que veiculamos busca fortalecer os valores imateriais e os princípios essenciais do ser humano, que estão na base de sua concepção, oferecendo exemplos de vida de pensadores e indivíduos que formaram os fundamentos da nossa civilização, que parece desconhecê-los atualmente. Também apresentamos debates atuais de pessoas envolvidas nos ideais de mudança do cenário desolador do planeta. Neste sentido, penso que uma publicação que inspire o mundo deve espelhar a essência da vida, de modo a quebrar os paradigmas equivocados do modo de viver da humanidade.

A espiritualidade, então, seria indissociável dessa mudança social e de paradigmas do viver humano?

Sim, claro. Desde que me conheço como indivíduo, toda a minha vida sempre foi canalizada para duas áreas principais: a espiritualidade e a atuação social, sendo que ambas são indissociáveis. Afinal, como é que uma pessoa espiritualizada vai ser indiferente à fome, à miséria, às guerras, às doenças e às dores de um modo geral? É impossível. Pensando assim, que a espiritualidade precisa estar na vida das pessoas de uma forma concreta, de modo a ter um efeito social efetivo, sempre busquei meios de debater sobre os problemas do indivíduo, a fim de estreitar a distância entre a espiritualidade e o social. Para isso, devem existir veículos de comunicação que estejam afinados com esses princípios. Foi isso o que primeiramente me inspirou a fundar a UP, a TV Supren e, agora, este jornal, um sonho antigo.

“Uma publicação que inspire o mundo deve espelhar a essência da vida”

Recentemente, o senhor me falou que o Governo do Cazaquistão, inspirado por uma palestra que o senhor ministrou lá, no 1º Fórum Mundial da Cultura Espiritual (em outubro de 2010), resolveu avaliar a criação de um organismo ecumênico nos moldes da União Planetária. A que o senhor deve isso?

À necessidade que alguns governantes têm de ampliar sua visão no sentido de que uma gestão pública deve estar embasada nos princípios dos quais lhe falei [da espiritualidade com foco na ação social], assim como faziam muitos governantes do passado da humanidade. Foi fantástico ver essa abertura estatal e esse ecumenismo do Governo do Cazaquistão, um país de maioria islâmica que herdou bombas atômicas da extinta União Soviética e que resolveu desativá-las completamente. Esse passo [em prol do pacifismo e do exercício da verdadeira espiritualidade como fundamentos de uma gestão responsável] é essencial e me surpreendeu positivamente. Foi uma excelente experiência! [O evento contou com a participação de Cardeais da Igreja Católica Romana e de Kiril I, patriarca da Igreja Ortodoxa de Moscou e de toda a Rússia, além de autoridades budistas, xintoístas, muçulmanas… e de muitas pessoas que, ainda que não tenham uma religião específica, vivem uma busca espiritual profunda. O fórum reuniu quase mil pessoas, entre delegados e observadores, vindos de mais de 60 países, além de quase cem voluntários ligados à organização do evento].

Um outro fórum de ricos debates, conduzidos pela UP, para a busca de soluções para complexos problemas sociais, políticos, econômicos e ambientais que vivenciamos, tem sido o “Movimento 2022, o Brasil Que Queremos”. Qual é a importância desse fórum para nossa realidade atual?

Fóruns como o Movimento 2022 são especialmente relevantes para que possamos, juntos, repensar os copiosos e dolorosos problemas da humanidade, a partir de diálogos construtivos e propostas de encaminhamentos práticos. Para isso, contamos com uma parceria com a UnB, cujo Reitor se mostrou sensível e aberto à nossa proposta. Daqui a cinco anos, o Brasil completará dois séculos de independência. Como nós, brasileiros, queremos comemorar esse aniversário? Com um gosto amargo, presenciando tantas misérias, tantas desigualdades, tanta corrupção? Acho que não. Por isso, acho tão relevantes os debates que temos estimulado com o Movimento 2022. Mudanças concretas na nossa realidade começam a ser efetivadas em espaços dialógicos como este.

No seu entender, como a UP consegue fazer essa simbiose entre a espiritualidade, a atuação social e a prática editorial?

Com ecumenismo, com um exercício suprapartidário, sem preconceitos e com uma comunicação que priorize a formação do indivíduo, além da informação, com foco nos valores imateriais do ser humano, como, por exemplo, os da bandeira francesa: liberdade, igualdade e fraternidade. A vida sem liberdade não tem nem razão para existir. A liberdade é como a respiração. A liberdade tem de ser ética. Se não for ética, se ela ultrapassar os limites do eticamente aceitável, a liberdade se torna abuso e gera a desigualdade. Já a igualdade, por sua vez, tem de ser conquistada como um ato de consciência, como um valor social, mas não pode ser imposta. A igualdade, segundo a visão democrática, como a igualdade de direitos e de oportunidades, tem de ser vivida como uma realidade construída eticamente. A ética igualitária é intrínseca à democracia, é a sua alma. Em vez da democracia da competitividade, precisamos da democracia da partilha, da cooperação, da solidariedade. E, se nós formos olhar mais profundamente essa questão, vamos ver que somente a fraternidade pode construir tanto a liberdade ética quanto a democracia solidária, fundada na igualdade. Tudo isso construído com o exercício pleno da espiritualidade interior de cada ser.

“Só a fraternidade pode construir tanto a liberdade ética quanto a democracia solidária”

Relógio no espaço cultural da União Planetária. Em latim, a inscrição diz: “O amor vence todas as coisas”.

 

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