28 jul
  • Por Janaina Vieira

O cuidado com as crianças implica no cuidado de suas mães

Na intervenção que vem sendo realizada com as mulheres do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) que vivem na ocupação da Unaf, em Planaltina, ação conjunta com o Centro Feminista de Estudos e Assessoria (Cfemea), a equipe do Centro de Referência em Direitos Humanos do Distrito Federal (CRDH/DF) iniciou também atividades com as crianças do local, filhas e filhos dessas mulheres.

Como a intervenção psicossocial não pode ocorrer sem apoio de pessoas para acompanhar as crianças que são filhos dessas mulheres, a equipe viu nessa necessidade, a aoportunidade de atuar também com esse grupo.

A psicóloga Larissa Tavira explica como essa atividade tem ocorrido. “Num primeiro momento nos aproximamos delas, fornecendo cuidados com o quais elas não estão acostumadas. A maioria ainda não está inserida no espaço escolar e não tem essa vivência, que são coisas aparentemente muito simples, como sentar pra comer coletivamente, pedir pra ir ao banheiro, de silenciar num momento que exige um ambiente mais silencioso e de atenção, or exemplo”.

“Esse é o momento de garantir um espaço e uma vivência voltada para essas crianças, para que elas sejam cuidadas e recebam atenção apropriada. Quando chegamos, elas sempre ficam muito animadas, e essa é a parte mais emocionante”, conta Larissa.

As crianças que vivem na ocupação, principalmente as mais novas, que têm até 5 anos de idade, talvez desconheçam completamente o que é morar na própria casa. Para a psicóloga, o contexto fornece questões importantes.

“Após estabelecermos esse vínculo, é possível começar a buscar as percepções delas sobre o que é ter uma casa, viver em uma casa, sonhar com uma casa, o que elas entendem por estar naquele espaço e viver daquela forma. É interessante que essa experiência sirva como um observatório sobre essas questões, pra sabermos qual a noção de lar que elas têm, porque elas já nascem num espaço que se dá pela luta, pela reivindicação por direitos humanos”. Depois disso, é que se pode, segundo Larissa, construir um trabalho mais efetivo e estruturado de psico educação.

Sensibilidade
A assistente social Nair Meneses relata que, durante os atendimentos, “percebemos que muitas mães, principalmente as que não trabalham fora, estão muito exauridas, por cuidarem das crianças em tempo integral. O espaço não oferece nenhum tipo de suporte a essas mulheres. Nâo tem brinquedos, biblioteca, absolutamente nada que as ajude. Mas sentimos que elas têm fome de outros saberes, além da televisão”, evidencia Nair.

De acordo com a assistente social, com o acúmulo dos encontros, as práticas de socialização surtem efeitos na forma como as crianças convivem entre si, principalmente pela dimiuição da violência e mais uso da comunicação.

As mães, por outro lado, não suportavam ou mesmo se autorizavam a ter um momento para elas, porque aprenderam a viver exclusivamente para os filhos.

“E ainda não aprenderam a suportar que os filhos sejam cuidados por um outro adulto. Isso parece muito simples, mas tem um valor simbólico muito grande, porque é necessário que essas mães possam desenvolver mais autonomia, para que seja possível lidar melhor com essas questões no momento em que conseguirem um emprego, e quando suas vidas passarem pelas mudanças necessárias. As crianças também precisam dessa autonomia. Todos os lados precisam crescer de forma independente”, aponta Larissa.

Lourival de Carvalho, advogado que integra a equipe do CRDH/DF, acredita que é a partir do contato com as crianças que as formas e metodologias para se trabalhar direitos humanos com elas surgem de forma mais evidente. “O desafio que temos pela frente é dar um sentido mais sólido para isso”, acrescenta.

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